Tár [Crítica do Filme]

O excesso de filmes de herói emburreceu toda uma geração que não está preparada para apreciar uma obra-prima desta magnitude 

Quem é fã de música clássica, vai assistir Tár de joelhos. Quem é fã de Cate Blanchett também e quem há tempos ansiava por um espetáculo cinematográfico, adoraria que Tár tivesse 10 horas de duração.

Nos primeiros materiais de divulgação, muita gente (inclusive eu) acreditávamos que Lydia realmente existia. Assistindo o filme, quem deixa de existir é a própria Cate Blanchett. Não fosse a filmagem classuda do diretor Todd Field, Tár seria quase um documentário exemplar sobre uma personagem ficcional, no caso a genial e narcisista maestrina Lydia Tár. Com uma carreira extensa e premiada, Tár é um monstro no bom e no mau sentido – é a melhor no faz e um ser humano execrável em sua vida particular, capaz das atitudes mais sórdidas para conseguir o que quer. De descendência alemã e lésbica assumida, Tár é casada com a musicista Sharon (Nina Hoss) e juntas adotaram uma filha negra e imigrante. Porém Lydia Tár nunca lhe foi fiel, tendo se relacionado com outras musicistas e descartando-as quando outras lhe interessavam. 

O filme abre com os créditos finais e segue para uma entrevista realizada em um teatro lotado, onde Lydia é apresentada com toda a aclamação possível e logo de cara o desempenho de Cate Blanchett impressiona, nos deixando fascinados por ela. Todos os seus feitos profissionais são elencados um a um, para que depois sua descida ao inferno seja contada sem pressa e conduzida por ela mesma, maestrina de tudo, dentro e fora dos palcos. 

Tár é apenas o terceiro filme do diretor, ator e roteirista Todd Field. Depois dos ótimos Entre Quatro Paredes (2001) e Pecados Íntimos (2005), Todd nos presenteia com uma obra tão arrebatadora que ele não tem mais o que provar e pode fazer o que bem entender daqui pra frente, inclusive nada. Com mais de duas horas e meia de duração, Tár não cansa, é elegante, conduzido com seriedade e precisão, sua direção de arte é sóbria, assim como a fotografia e os figurinos com suas cores frias, discretas e eficientes, tal qual sua protagonista. O roteiro de início parece verborrágico ao dar ênfase em técnicas musicais e nomes do meio, mas no fim, só é enriquecedor e no final das contas não se conta um único diálogo desnecessário. 

Cate Blanchett vem falando em aposentadoria ou “dar um tempo”, ficar quieta…Desde que foi indicada ao Oscar pela primeira vez em Elizabeth (1999), ela não parou. Tár é sua oitava indicação ao Oscar e pode (e deve) lhe dar sua terceira estatueta. Após o prêmio de coadjuvante ao interpretar com perfeição Katharine Hepburn em O Aviador (2004), Cate finalmente ganhou como atriz principal em 2013 com Blue Jasmine, de Woody Allen. Seu desempenho em Tár chegou a um nível de excelência que sim, é o melhor de sua carreira e só alguém com muita experiência no ofício poderia alcançar. Se decidir parar de vez, vai encerrar sua brilhante trajetória com chave de ouro.

Tár é gigantesco, impressionante e fascinante. Todd Field e Cate Blanchett também.

FICHA TÉCNICA

Título: Tár
Direção: Todd Field
Data de lançamento no Brasil: 26 de janeiro de 2026
Universal Pictures Brasil

Italo Morreli Jr.

One thought on “Tár [Crítica do Filme]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Crítica: A Esposa do meu marido Dorama: Diva à Deriva Dorama: Nosso Destino 5 doramas dublados no Star+
Crítica: A Esposa do meu marido Dorama: Diva à Deriva Dorama: Nosso Destino 5 doramas dublados no Star+