Cem Anos de Solidão [Crítica]

Cem Anos de Solidão

A segunda parte de Cem Anos de Solidão consegue manter a força da primeira e, ao mesmo tempo, ampliar o olhar sobre a família Buendía e sobre a própria Macondo.

Se a primeira nos apresentou Aureliano e nos fez criar uma forte conexão com aquela primeira geração, agora o tempo passa e novos personagens assumem o protagonismo. A chegada de Fernanda, extremamente religiosa e rígida, muda completamente a dinâmica da casa, enquanto Aureliano Segundo e José Arcadio Segundo representam caminhos muito diferentes dentro da nova geração.

Se antes ficou bem claro que os conflitos do Coronel Aureliano Buendía eram uma forma irônica que o autor encontrou de representar a luta partidária entre liberais e conservadores na Colômbia, a série explora, nesta segunda parte, outras metáforas. Macondo finalmente se conecta com o resto do mundo, mas essa abertura acaba levando o povoado à ruína de muitas formas. É aqui que Gabriel García Márquez associa a perda da inocência primitiva latino-americana à modernização e ao imperialismo econômico. O episódio do Massacre das Bananeiras evidencia a força da repressão, do Estado e, principalmente, do apagamento da história e da memória coletiva. Macondo se torna, assim, uma representação de toda a América Latina.

Os Buendía não conseguem escapar do ciclo de repetições: repetem os nomes, os amores proibidos e os mesmos erros. Estão presos a um destino que não conseguem perceber. É belíssima a maneira como García Márquez constrói suas alegorias por meio de personagens carismáticos e também do realismo fantástico. O extraordinário está presente o tempo todo e, pouco a pouco, nós o normalizamos. A essa altura, ninguém mais fica realmente espantado com as coisas absurdas que acontecem em Macondo, até porque a própria realidade parece muito mais opressora. 

Cem Anos de Solidão
A série condensa acontecimentos e os coloca de forma cronológica, mas ainda assim se mostra bastante fiel ao livro. A escolha dos atores combina perfeitamente com os personagens. Claudio Cataño parece ter nascido para interpretar o Coronel Aureliano Buendía e, mesmo perdendo espaço narrativo nesta temporada, continua sendo uma presença marcante. O mesmo pode ser dito de Marleyda Soto como a matriarca Úrsula. O trabalho de maquiagem para envelhecer a atriz também está muito bem feito.

A direção de Laura Mora e Carlos Moreno sabe dar espaço ao drama e à melancolia. Os dois também trabalharam muito bem na construção visual de Macondo, que deixa de ser apenas um cenário e passa a refletir as transformações da própria história. A fotografia da série continua impecável, acompanhando a passagem do tempo e a transformação do povoado, que aos poucos abandona sua atmosfera quase primitiva para mergulhar em um processo de modernização que também anuncia sua decadência.

Cem Anos de Solidão, disponível na Netflix, consegue colocar em tela temas como memória, abuso de poder, violência, amor, solidão, passagem do tempo e os ciclos que se repetem. É uma produção belíssima, ótima tanto para quem já leu o livro de Gabriel García Márquez quanto para quem ainda não leu e certamente poderá se interessar em conhecer uma das maiores obras da literatura latino-americana.

Michele Lima

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