Alpha [Crítica do Filme]

Depois dos surpreendentes Raw (2016) e Titane (2021), eu meio que me sinto na obrigação de assistir tudo o que a cineasta Julia Ducournau lançar. Seu segundo filme, por exemplo, lhe rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, a primeira individual para uma mulher, visto que em 1993, Jane Campion dividiu o prêmio com Chen Kaige.
Com críticas mistas, Alpha é mais tímido no body horror e mais focado no drama familiar, mais precisamente num recorte dos anos 80 e a epidemia do HIV.
Alpha (Mélissa Boros), de apenas 13 anos, volta para casa depois de uma festa com um A tatuado no braço. Sua mãe, que é médica (Golshifteh Farahani), fica preocupada com a possibilidade de ela ter contraído um vírus transmitido pelo sangue, cujas vítimas gradualmente se transformam em mármore. Mas, como desgraça pouca é bobagem, o tio de Alpha, Amin (Tahar Rahim), um viciado em heroína e que está infectado, volta para morar com a irmã. O trio principal está soberbo, estampando o tempo todo na tela que laços familiares são, de certa maneira, inquebráveis.
A escolha pelo mármore como representação da fase terminal dos infectados tem vários significados. Pode ser a frieza da rejeição/solidão, a petrificação emocional e a imortalização do que a sociedade prefere esquecer – corpos marginalizados e abandonados pelos sistema de saúde e seus familiares.

O uso confuso do flashback deixa a narrativa um pouco dispersa, o que torna Alpha um pouco menos impactante que os trabalhos anteriores da diretora francesa. Mesmo assim, não é nem um tropeço e nem uma grande baixa em sua carreira – Alpha é belo de um jeito desconcertante.

