Dia D [Crítica do Filme]

Steven Spielberg dispensa apresentações para os amantes de cinema. Ao longo de sua carreira, o icônico cineasta se consagrou por transformar o extraordinário em algo emocionalmente humano, despertando fascínio, empatia e senso de aventura.
O diretor ajudou a definir o conceito moderno de blockbuster com obras que entraram para a história, como Jurassic Park, Indiana Jones e Tubarão. Além disso, dirigiu produções premiadas, entre elas A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan, sem contar suas adoradas ficções científicas, como E.T. – O Extraterrestre, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Guerra dos Mundos. Mesmo em histórias sobre alienígenas, dinossauros ou aventuras épicas, o foco costuma estar nas emoções e nos relacionamentos de seus personagens.
Em Dia D, há diversos resquícios dessa abordagem intimista que Spielberg imprime em seus projetos, presentes durante toda jornada do longa. No entanto, o filme recebeu maior notoriedade quando comparado a outras produções recentes, já que muitos acreditavam que o diretor como figura influente estaria preparando a humanidade para uma possível “revelação” sobre extraterrestres convivendo em nossa sociedade.
Embora pareça um tema amplamente explorado pela mídia, nos últimos anos cresceu a busca por informações sigilosas relacionadas ao assunto, enquanto o Pentágono passou a divulgar cada vez mais relatos envolvendo OVNIs. Esse contexto acabou fortalecendo as expectativas em torno do novo filme de Spielberg, que supostamente poderia apresentar, ainda que de forma indireta, diversas alegações subliminares relacionadas ao tema.
No filme, acompanhamos uma empresa privada comandada por Noah Scanlon (Colin Firth), que tem projetos ultrassecretos furtados pelo agente de cibersegurança Dr. Daniel Kellner (Josh O’Connor). Disposto a revelar a “verdade” ao mundo, Daniel conta com a ajuda de Jane Blankenship (Eve Hewson), uma ex-noviça que deixou sua vida religiosa. Os arquivos contêm documentos e registros filmados que indicam a presença de extraterrestres vivendo em nossa sociedade desde a década de 1970, ocultadas pelo governo.
Paralelamente, conhecemos Margaret Fairchild (Emily Blunt), uma meteorologista que trabalha em uma emissora de televisão no Kansas, mas sonha em se tornar âncora do principal telejornal. Após um gatilho emocional, ela passa a agir de maneira estranha, falando idiomas que nunca aprendeu e demonstrando a capacidade de ler a mente das pessoas ao seu redor, até desmaiar ao vivo durante uma transmissão.
Ao ser levada para o hospital, Margaret descobre que Noah está à sua procura. Após sua linguagem incomum ser compatível com os seres ocultos. Noah possui um poderoso artefato alienígena, fazendo uma tecnologia reversa sendo capaz de transportar telepaticamente para qualquer lugar e até mesmo torná-lo invisível. Ao fugir do hospital Margaret recebe uma ligação desconhecida de Hugo Wakefield (Colman Domingo), que atua ao lado de ex-funcionários da empresa como parte de um grupo de “revolucionários” empenhados em revelar a verdade. Ele a orienta a encontrar Daniel para que ambos unam forças em busca desse objetivo.
Spielberg introduz os personagens de maneira convincente dentro daquilo que se propõe a realizar, apresentando dois protagonistas escolhidos pelos seres para testemunhar esse momento de revelação. Emily Blunt se destaca um nível acima dos demais e acaba roubando a atenção da narrativa, entregando uma personagem carismática e emocionalmente envolvente.

O drama presente na narrativa gera boa tensão, apreensão e um constante sentimento de urgência para o espectador em cada ato. Aliada a uma trilha sonora esplendorosa, a obra constrói uma atmosfera única dentro de sua cosmologia. A presença da religião, representada por Jane, é trabalhada de maneira satisfatória, trazendo reflexões plausíveis sobre a fé diante da existência de vida extraterrestre e sobre como uma revelação dessa magnitude impactaria crenças ao redor do mundo.
O uso da bancada de um telejornal como palco para uma possível grande revelação pode soar datado para alguns espectadores, mas é importante destacar a credibilidade que esse formato ainda possui quando comparado à internet.
Spielberg consegue demonstrar de forma eficiente o impacto real que uma notícia dessa magnitude teria sobre a sociedade, tornando impossível desgrudar os olhos da tela enquanto os acontecimentos se desenrolam.
Entretanto, ao longo da jornada, o filme acaba se moldando ao tradicional DNA de Spielberg. Por um lado, isso reduz parte do peso narrativo com cenas de perseguição pouco realistas, saltos em trens em movimento e agentes altamente treinados que se mostram incapazes diante de dois civis. Por outro, essa escolha também torna a experiência mais aventuresca e alinhada ao estilo cinematográfico característico do diretor.
A empresa e o governo, apresentados como os grandes antagonistas da trama, acabam não transmitindo a força que se imaginaria diante de uma situação tão extrema. Se comparado ao que provavelmente ocorreria na vida real diante de uma revelação capaz de mudar os rumos da humanidade, a resistência encontrada diante dos protagonistas parece relativamente limitada.
Dia D consegue entregar, mesmo sem planejar explicitamente, a sensação de encerramento de uma espécie de trilogia alienígena dentro da filmografia de Spielberg. E, apesar de tropeçar em alguns momentos por conta de seu DNA aventuresco, há muitos espectadores que aceitarão essas escolhas sem dificuldades, já que a essência da obra funciona. Sua mensagem para os curiosos e entusiastas da ufologia é transmitida com sucesso, resultando em uma experiência envolvente e repleta de discussões fascinantes.
FICHA TÉCNICA
Título: Dia D
Título original: Disclosure Day
Diretor: Steven Spielberg
Data de Lançamento: 10 de junho de 2026
Universal Pictures
Lucas Venâncio

