Apneia [Resenha da HQ]

Apneia

Para muitos, nadar pode ser algo apavorante, seja em praia ou piscina. Porém em Apneia, HQ de estréia do talentoso Raftuca, alguns momentos em uma escola de natação podem explodir sua mente.

A capa, num belo tom de azul, sugere que não haverá um banho de sangue nas páginas seguintes e que nem a água e nem a piscina serão os vilões da história. Ou serão? O título escrito na capa em letras grandes e o fundo de ladrilhos irregulares da piscina sugerem que apesar da imagem parada, a água está em movimento.

Ao fugir do óbvio, a narrativa envereda pelo viés psicológico no melhor estilo Além da Imaginação, onde o menino Diego está numa aula de natação numa escola localizada na zona norte de São Paulo, mais precisamente às 08:40 da manhã. Em sua companhia surge Selma, uma menina que aparenta ter a mesma idade que Diego e que o aguarda ansiosamente. Ambos são observados por um estranho objeto que se assemelha a um cavalo de pau que parece controlar Selma.

O que parecia uma saudável interação entre crianças se torna algo mórbido, reforçado pelos traços personalíssimos de alguém que é confiante no que faz e nem sente mais o peso da caneta.

Apneia entrega o horror do sobrenatural em pequenas e precisas doses, sem pecar pelo excesso. De quebra, deixa alguns questionamentos que nos obrigam a compartilhar a HQ, discutir e pensar sobre a apneia, a piscina, Diego, Selma e o Cavalo de Pau.

Entrevista 

Quais são os desenhistas que te inspiraram a estudar, se formar e se tornar o Raftuca de hoje? Lembra do seu primeiro desenho? Ainda tem ele?

R: Meu primeiro desenho ou rabisco, deve ter sido na capa de algum disco de vinil que tinha em casa. Devo ter algum caderno guardado ainda – taí uma boa pergunta. Irei atrás dele.

Quanto aos artistas que me inspiraram, foram muitos ao longo do tempo. Nos anos 90, quando comecei a desenhar com mais frequência, eram os quadrinhos da Marvel, DC e Image Comics que estavam em evidência aqui no Brasil. Então, Jim Lee, Todd McFarlane, Joe Madureira, Greg Capullo foram os que eu tentava copiar. 

Com o tempo fui descobrindo o quadrinho alternativo e o quadrinho europeu, aí tudo ficou mais interessante. Hoje em dia, sempre revisto a arte do Kevin Eastman, Paul Pope, Bernie Wrightson e Sergio Toppi.

Entre os artistas brasileiros, gosto do trabalho do Lourenço Mutarelli, da Amanda Miranda, do Fábio Vermelho, do Doug Firmino. Na real, preciso ler mais quadrinhos nacionais, e tenho certeza de que estou deixando de citar artistas incríveis aqui.

Apneia HQ

Você pratica natação e escolheu como cenário da sua primeira HQ uma piscina onde duas crianças se divertem. De início o tema água causa um pouco de apreensão, deixando o leitor preocupado com o que pode vir a acontecer ali. Você que pratica o esporte, venceu algum medo ou superou algum trauma em relação a isso? Existe algo de autobiográfico em Apneia?

R: Sempre gostei de água e nunca tive medo ou traumas. Na natação eu gosto da liberdade e da independência de praticar o esporte. Ao mesmo tempo, a água é um habitat recorrente em histórias de suspense e terror e isso me ajudou muito a desenvolver Apneia.

Quanto ao aspecto autobiográfico, existem alguns pontos reais que foram direto pro quadrinho. A piscina onde a história acontece existe e é onde atualmente faço minhas aulas. Até o ano passado tinha um garoto nadando em outra raia no mesmo horário que eu. O personagem do Diego foi baseado nele.

Gosto muito do tom de azul escolhido para colorir a capa, poderia ser vermelho e dar uma falsa impressão de gore no conteúdo da HQ. No entanto, a história segue pelo viés do terror psicológico, do mostrar pouco e deixar o leitor imaginando o propósito daquele momento. Para você, o terror sugerido é tão perturbador quanto o explícito?

R: Acredito que o terror sugerido é mais incômodo. E isso é fantástico, podemos imaginar algo infinitamente mais horrível. O desfecho do filme “O Bebê de Rosemary” é um bom exemplo. A gente vê a expressão de horror no rosto da Rosemary, mas não vemos a criança nem por um segundo – tudo fica pra gente imaginar. E é curioso que no livro existe toda uma descrição do bebê. 

E isso não significa que não gosto do terror explícito. Acho válido provocar com o aspecto gráfico, com o gore, mas tem que ser feito pra valer, abraçar a estética.

Nascemos no mesmo ano, o longínquo 1978, e vivemos um período que marcou e definiu o cinema de horror. Hoje existe tanta produção quanto naquela época, mas pouca coisa empolga em meio a muitas refilmagens, continuações tardias e até mesmo trilogias que fazem reboot das franquias. O diretor M. Night Shyamalan surpreendeu ao adaptar a graphic novel francesa Castelos de Areia, provando que as HQs estão aí como ótimas fontes de inspiração. Você já pensou em fazer uma HQ com seu estilo inspirada em algum clássico do terror? Se sim, qual seria? Tem alguma HQ de terror que gostaria que se tornasse um longa-metragem?

R: Sim, gostaria um dia de fazer algum quadrinho inspirado no “Massacre da Serra Elétrica”, ou “Hellraiser”, ou “Evil Dead”, gosto bastante da estética suja desses filmes. Acho que dialoga com o quadrinho mais alternativo / underground.

E quanto a uma hq de terror que gostaria de ver adaptada pro cinema, li recentemente um quadrinho sueco chamado SPA, do Erik Svetoft. Não seria uma adaptação fácil, mas nas mãos das pessoas certas pode render um bom filme.

Aquela foto que aparece no final da HQ e mostra uma visão da piscina sob a perspectiva do cavalinho é assustadora, pois parece confirmar que ele existe e habita aquele local. Você tem esse cavalinho ou a imagem é manipulada para causar o que senti?

R: Nada na imagem foi manipulado e o animal de brinquedo existe. Ele ficava dentro da sala dos professores da natação. E ver o brinquedo ali da piscina encostado, no escuro, pelo vidro, era algo bem estranho, quase macabro. Meu trabalho foi pedir autorização para o professor, e entrar na sala pra tirar algumas fotos – foi quando percebi que parecia mesmo que ele estava observando a piscina de lá de dentro.

Apneia
Raftuca, autor de Apneia

Suas recriações de pôster de filmes de terror são incríveis, há muito capricho nos detalhes, texturas e jogo de luz e sombra, com resultados complexos. Quais são seus artistas plásticos ou pintores favoritos?

R: Gosto muito da arte do Caravaggio. Sempre me causa impacto a manipulação da luz e da sombra – sem contar o equilíbrio das composições dos elementos nas suas obras.

Como bom fã de filmes de terror, gosto demais do trabalho do H.R. Giger. Das instalações artísticas às fusões que ele criava nas capas de álbuns de música, os trabalhos que ele fez pro cinema e pra alguns jogos de videogame – acho todos incríveis.

Para terminar, Apneia pode vir a ser um curta-metragem de cinema ou animação futuramente? Existe a possibilidade de se expandir para uma história maior?

R: Sinceramente nunca pensei nisso, mas seria curioso ver um curta desse quadrinho. Quanto à questão de expandir a história, acho que não, realmente gosto de deixar alguns espaços na história para cada leitor completar.

Italo Morelli Jr.

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