Sweetpea [Crítica da Série]

Sweetpea

A literatura contemporânea encontrou, nos últimos anos, um terreno fértil para protagonistas moralmente ambíguas, especialmente dentro do thriller psicológico. Foi nesse cenário que surgiu Sweetpea, romance publicado em 2017 pela escritora britânica C. J. Skuse, que apresentou ao público a perturbadora mente de Rhiannon Lewis. O sucesso do título acabou se expandindo para uma série literária, transformando Rhiannon em uma anti-heroína sombria que atravessa diferentes fases de sua vida enquanto lida com seus próprios demônios.

A popularidade da obra acabou inevitavelmente levando à adaptação televisiva com Sweetpea, que, no Brasil, está sendo distribuída pelo Prime Video. Com apenas seis episódios em sua primeira temporada, a produção opta por adaptar o material original com uma abordagem mais humanizada, suavizando parte da brutalidade presente nos livros para se concentrar em um estudo psicológico mais intimista da protagonista.

No centro da história está Rhiannon Lewis, vivida por Ella Purnell, uma jovem que passou a vida inteira sendo ignorada, ridicularizada ou subestimada por praticamente todos ao seu redor. Desde a infância marcada por bullying até sua vida adulta dentro de uma redação de jornalismo, onde constantemente é tratada como irrelevante, a personagem carrega o peso de anos sendo vista como o “patinho feio”. A série constrói esse passado com cuidado para deixar claro que sua transformação não surge do nada, mas de um acúmulo de frustrações, humilhações e traumas que nunca foram realmente superados.

Nesse contexto, surge Julia (Nicôle Lecky), uma figura diretamente ligada às feridas do passado de Rhiannon que representa a personificação de anos de bullying e desprezo. A personagem muitas vezes surge de forma mais caricata dentro da narrativa, destoando em alguns momentos do tom mais realista da série. Ainda assim, o rumo da história acaba mostrando que sua presença tem um propósito claro dentro da jornada da protagonista: simbolizar o ponto de ruptura que desencadeia toda a espiral de violência.

A partir desse momento, a série passa a explorar uma ideia bastante direta: as consequências reais do bullying e como traumas não resolvidos podem acompanhar uma pessoa até a vida adulta. No caso de Rhiannon, essa dor reprimida encontra uma válvula de escape extrema. O primeiro assassinato surge quase como um ato de defesa, um momento em que a personagem reage à violência psicológica acumulada ao longo dos anos. No entanto, o que começa como um ato impulsivo rapidamente se transforma em algo mais complexo quando ela percebe que suas vítimas, em muitos casos, são pessoas moralmente questionáveis. Sendo frequentemente homens abusivos ou tóxicos que cruzam seu caminho.

Sweetpea
Essa percepção cria uma espécie de racionalização perigosa para seus crimes. Rhiannon passa a enxergar suas ações como uma forma distorcida de justiça, o que a leva gradualmente a mergulhar ainda mais fundo nesse comportamento. Ao mesmo tempo, a série constrói uma camada adicional de tensão ao mostrar como ela utiliza sua própria profissão para encobrir seus rastros. Trabalhando em uma redação e cercada por colegas que a subestimam, a protagonista começa a manipular situações, informações e até mesmo amizades para avançar profissionalmente enquanto mantém sua fachada intacta.

Dentro da história, Leah Harvey também se destaca no elenco ao interpretar uma detetive cuja investigação começa a se aproximar perigosamente da verdade. Sua presença funciona como uma ameaça constante à vida dupla de Rhiannon, adicionando uma camada de suspense que mantém a narrativa instigante ao longo da temporada.

Ainda que a adaptação suavize a brutalidade do material literário, a série encontra um equilíbrio interessante ao apostar em uma protagonista mais humana. Nesse sentido, Ella Purnell convence plenamente no papel, entregando um desempenho que oscila entre fragilidade, sarcasmo e um crescente senso de poder. A atriz consegue tornar Rhiannon simultaneamente perturbadora e compreensível, algo essencial para que o público acompanhe sua trajetória sem que a personagem se torne completamente irreparável.

Com apenas seis episódios, Sweetpea se revela uma experiência curta, mas envolvente, que mistura thriller psicológico com crítica social e estudo de personagem. O final da temporada deixa várias pontas em aberto, sugerindo um futuro promissor para a série. Considerando que os livros de C. J. Skuse expandem essa história em diferentes volumes, há ainda muito material para ser explorado, deixando claro que a história de Rhiannon Lewis está apenas começando.

Lucas Venancio

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