Cangaço Novo [Crítica]

Ariano Suassuna não trocaria o seu oxente por nenhum OK de ninguém. Eu também não e digo mais: não trocaria Cangaço Novo por muita série americana também! Não que a produção brasileira seja livre de falhas, infelizmente não é, mas claramente é uma obra espetacular.
Longe de ser uma trama cansativa ou cheia de vícios novelescos, Cangaço Novo é uma série repleta de ação e drama familiar. Vamos acompanhar a jornada do herói Ubaldo (Allan Souza Lima), o filho pródigo que, em busca de uma herança perdida para ajudar seu pai adotivo, volta para a sua terra natal, a fictícia Cratará, no Ceará. No entanto, além de não conseguir o dinheiro, já no primeiro episódio Ubaldo entra para o bando de cangaceiros da região, assaltantes de banco.
O protagonista não tem memória do que aconteceu no seu passado, mas reencontra suas duas irmãs: Dilvânia (Thainá Duarte), muda, mas claramente empática com o irmão; e Dinorah (Alice Carvalho), o reflexo mais perfeito da violência, mas uma mulher que ainda guarda muita bondade apesar de tudo. Os três são da família Vaqueiro, antigos cangaceiros, filhos do místico Amaro, líder do cangaço da região. Uma tragédia separa os irmãos, algo que fez Ubaldo esquecer seu passado completamente, mas que, ao voltar para sua terra, o faz retornar às suas origens, mesmo que ele resista.
Além do sangue Vaqueiro, que faz com que todos no lugar tratem Ubaldo como uma grande esperança, o protagonista tem uma liderança nata e a inteligência acumulada nos anos no Exército e no trabalho de bancário, o que faz com que ele transforme um grupo de pé-rapados em um bando bem mais esperto, com assaltos bem planejados e roubando muito mais dinheiro. E, ao contrário dos demais, a família Vaqueiro está claramente ligada à terra e ao desenvolvimento local, portanto, também à política da região.
Assim, além do drama familiar que permeia a série, temos trama política e muita ação, com direito a bastante troca de tiros, perseguições de carro e violência. Porém, vale ressaltar que, apesar da violência intrínseca ao tema em questão, a direção teve tato ao não mostrar com clareza partes que poderiam até ser chocantes. Houve um certo cuidado com a audiência, sem apelação, e isso me agradou bastante.

Outro aspecto positivo na série foi a seleção de elenco, priorizando atores nordestinos, com sotaques verdadeiros. O trio da família Vaqueiro é ótimo, com destaque indiscutível para Alice Carvalho como Dinorah, uma força incrível de atuação. A direção também se destaca demais na parte de ação e dá um show à parte nesse aspecto. Já o roteiro peca, infelizmente, em alguns cortes. É bom em não nos enrolar, mas ruim por subentender demais. E, quando chega à reta final, acelera tanto que a impressão é a de que há uma urgência para aparar arestas que não se aparam. Ainda assim, não é algo que arranhe a obra. Isso porque o grande trunfo do roteiro é a construção de seus personagens!
Em Cangaço Novo, Ubaldo vai se tornando mais pesado à medida que se torna, inevitavelmente, violento. É possível se tornar justiceiro sem se sujar com o sangue alheio? Porque, por mais que Ubaldo não queira matar, mata. Por mais que não queira roubar, rouba. E como não torcer pela figura do herói que, mesmo errado, só quer o bem dos demais?
Enfim, Cangaço Novo traz um pouco do que A Casa de Papel nos trouxe: a figura do herói bandido e um tanto de camadas de complexidade aos seus protagonistas. É uma série brasileira que precisa de uma segunda temporada!
Michele Lima


Valeu pela resenha. Desconhecia totalmente essa série, antes de você falar dela. Resenha convidativa e perfeita.
Boa semana!
O JOVEM JORNALISTA está em HIATUS DE INVERNO do dia 21 de agosto à 14 de setembro, mas comentarei nos blogs amigos nesse período. O JJ, portanto, está cheio de posts legais e interessantes. Não deixe de conferir!
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