Do Fundo Da Estante: Twin Peaks 

David Lynch é único e isso não é apenas uma constatação de quem é fã ou da crítica especializada. Quem mais poderia fazer uma obra tão sensível quanto O Homem Elefante (1980) e tão perturbadora quanto Veludo Azul (1986), sobreviver ao fracasso de Duna (1984) e ser a maior audiência da TV estadunidense da época com a série Twin Peaks em 1989?
O artifício “quem matou?” não era novidade desde que Agatha Christie começou a ser adaptada pros cinemas e mesmo assim funcionou muito bem. Aqui no Brasil tivemos no mesmo ano o “quem matou Odete Roittman” e a audiência toda adorando brincar de detetive. No caso de Twin Peaks não era apenas o “quem matou Laura Palmer?” – a série inovou ao trazer para a TV tanto a estética quanto a linguagem cinematográfica.  Era como se estivéssemos vendo um longa-metragem estreando na sala de nossa casa com uma bela (e demorada) abertura ao som de Angelo Badalamenti.
O protagonista, Kyle MacLachlan, era o mesmo de Veludo Azul e o elenco marcou tanto, que mesmo pouco conhecidos, acabaram conquistando uma legião de fãs que acompanha suas carreiras até hoje – mesmo porque, cumprido uma promessa no final da 2° temporada, a 3° aconteceu 25 anos depois trazendo quase todos os personagens de volta e mais alguns.
Kyle é o agente Dale Cooper que chega na pacata cidade de Twin Peaks para investigar o assassinato da jovem Laura Palmer, interpretada por Sheryl Lee. Como se trata de um trabalho de David Lynch, nem os habitantes e nem Laura Palmer são o que parecem ser. O clima é estranho, o lugar é estranho e os moradores muito mais. Twin Peaks parece um lugar parado no tempo, a exemplo das cidades interioranas dos EUA. Porém, a impressão de que o lugar até parece uma outra dimensão só aumenta com o passar dos episódios, graças a marca do diretor que adora expor o quão bizarros os estadunidenses conseguem ser.
Sucesso no mundo todo, a primeira temporada teve apenas oito episódios e deixou os telespectadores polvorosos – todos queriam pra ontem a revelação do assassino e desfechos surpreendentes para os personagens. A expectativa criada para a segunda temporada, lançada em 1990, foi grande e a decepção foi maior: por imposição dos produtores, a revelação foi feita logo no início e David Lynch perdeu o controle sobre o projeto. Foram criados 22 episódios onde foram adicionadas várias subtramas e novos mistérios envolvendo outros personagens, o que resultou numa temporada arrastada e por muitas vezes entediante. Chateados com o resultado, os fãs que tanto acalmaram a série, até compraram as edições em DVD e Blu Ray que foram lançadas posteriormente, não se entusiasmavam muito em defendê-la ou tentar explicar, nem mesmo depois do longa Os últimos dias de Laura Palmer (1992) lançado para tentar consertar as coisas.
Justificando o seu adjetivo de único, David Lynch pegou a todos de surpresa quando em 2017 retornou com a uma terceira e ótima temporada. Mantendo a qualidade estética, Lynch escreveu e dirigiu todos os 18 episódios, deixou a imaginação rolar, e tudo voltou mais estranho do que já era. Rever os personagens depois de 1/4 de século foi um êxtase para os fãs. Com Lynch no controle de tudo, a audiência estava a postos pronta para aceitar qualquer devaneio. E desmitificando a prática de “não importa quem matou Laura Palmer e sim o desenrolar da trama”, esta terceira temporada veio dizer que sim, importa muito quem, como e porque Laura Palmer morreu. Tudo é mostrado no arrebatador oitavo episódio, uma verdadeira aula de cinema como há muito não se via. Esta temporada não só fecha com dignidade e excelência o mistério sobre Laura Palmer como também se estabelece como o maior acontecimento televisivo da década passada – nenhuma outra série ou reality show conseguiu fazer sombra a esta obra.
O alvoroço foi tanto que deixou aquele gostinho de quero mais, mesmo com a trama concluída. Se vier uma quarta temporada e vinda de David Lynch, surpresas não irão faltar. Afinal, é Twin Peaks.
Italo Morelli Jr.

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