A Meia-Irmã Feia [Crítica]

A diretora e roteirista norueguesa Emilie Blichfeldt teve uma idéia genial: usou como pano de fundo a fábula da Cinderela para contar uma história sobre o horror de ser mulher numa sociedade que a vê apenas como mero objeto sexual.

Elvira (a corajosa e talentosa Lea Myren) e sua irmã Alma (Flo Flargeli) se mudam para um castelo com sua mãe Rebekka (Ane Dahl Torpe) que vai se casar com Otto (Ralph Carlsson), o pai de Agnes (Thea Sofie Lock Næss), a Cinderela. 

Otto morre em seguida e Agnes revela que ele se casou por interesse achando que Rebekka era rica, porém ela também está falida. Ao anunciarem que o príncipe Julian (Isac Calmroth), está à procura de uma esposa, Agnes e Elvira se inscrevem para o baile, porém apenas Agnes é linda o suficiente. Elvira precisa perder peso e se submeter a vários procedimentos estéticos numa época em que a medicina era bem rudimentar e não existia anestesia. É aí que começa a descida ao inferno da pobre Elvira, obrigada por sua mãe a melhorar a aparência e conquistar o príncipe. 

Tudo o que se espera de uma adaptação da Cinderela está aqui, porém a narrativa é do ponto de vista de Agnes, assim como Malévola não era do ponto de vista da princesa Aurora. De todas as histórias clássicas que entraram em domínio público e foram adaptadas para o cinema no gênero terror, A Meia-Irmã Feia é a melhor, a mais original e inteligente, que não faz o espectador de idiota.

O que mais aterroriza aqui é que tais métodos certamente foram usados e em algum lugar nesse mundo ainda são praticados. Mesmo com a evolução da medicina, a morte de alguma mulher na mesa de algum cirurgião plástico é recorrente.

A reconstituição de época é bem cuidada, a fotografia é muito boa e a trilha sonora cheia de sintetizadores também. Emilie aposta nas atrizes e elas entregam tudo, principalmente Lea Myren, que sempre será lembrada pelo seu destemido desempenho. As comparações com A Substância (2024) são inevitáveis, porém injustas, pois Coralie Fargeat exagerou na dose com tantas homenagens, referências e situações cômicas de tão grotescas.

A Meia-Irmã Feia não brinca com o sofrimento e causa mais angústia justamente por ser muito próximo da realidade, nos fazendo sentir empatia pela protagonista e repulsa pela até então adorada Cinderela. 

Fiquem de olho nesta talentosa diretora, nota 7/10

FICHA TÉCNICA

Título: A Meia-Irmã Feia
Título Original:Den stygge stesøsteren
Direção: Emilie Blichfeldt
Data de lançamento: 23 de outubro de 2025

Italo Morelli Jr.

Na Nossa Estante

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