Bingo – O Rei das Manhãs [Resenha do Filme]

Conferimos a Cabine de Imprensa de Bingo – O rei das Manhãs

Uma das coisas que mais me incomoda em roteiros baseados em biografias é a necessidade de ser piegas e nos convencer de que a pessoa é um santo! Não é o caso de Bingo, que foi baseado na história de Arlindo Barreto, um dos interpretes do palhaço Bozo! O roteiro de Luiz Bolognesi não apela para sentimentalismos baratos e o que temos é a crua, dura e também divertida vida de um dos personagens mais famosos na TV nos anos 80.

Augusto Mendes (Vladimir Brichta) é filho de uma atriz famosa, ex-marido de uma atriz também famosa, mas um fracasso na carreira. Bem, não exatamente um fracasso, já que é um ator de sucesso na Pornochanchada, gênero de cinema bem comum no Brasil nos anos 80. Augusto tenta uma ponta na novela das nove na Mundial (leia-se Globo), mas não consegue e se sente bastante humilhado. Ao tentar fazer um teste na concorrência, o personagem descobre que estão buscando um palhaço para ser o Bingo (leia-se Bozo), apresentador de um programa infantil de extremo sucesso americano. De maneira ousada e muito engraçada, Augusto consegue um papel e até faz estágio no circo, onde temos a participação de Domingos Montagner, para melhorar sua performance. Augusto é excêntrico, egocêntrico, mas com certeza sempre foi uma pessoa dedicada ao trabalho. Até entrar no vício e perder completamente o controle de sua vida.

Cenas interessantíssimas são mostradas no longa, temos os bastidores da TV, personalidades importantes e a mensagem clara de que os números da audiência são mais importantes do que o ser humano por trás da arte. Temos Pedro Bial como diretor da Mundial, numa referência explícita ao Boni e Bingo consegue chegar ao primeiro lugar com o rebolado de Gretchen (Emanuelle Araújo), uma forma que ele encontrou de combater uma certa loira de maiô na concorrência, a Xuxa.

Desbocado, rancoroso, maluco, Bingo dá sua volta por cima e vamos do seu apogeu ao declínio na TV, até sua conversão à Igreja Batista, fato que não foi bem explorado e ponto positivo por isso. O longa não fica preso na obrigação de retratar qualquer tipo de religiosidade e de ter que necessariamente fazer qualquer espécie de redenção ao personagem. Ainda que o pouco mostrado tenha sido uma exigência de Arlindo Barreto.

Além de nos mostrar sobre o personagem, o grande foco do longa é a forte relação do protagonista com seu filho que percebe o afastamento do seu pai, seu grande herói. Augusto vai de bom pai à negligência, deixando o álcool, o trabalho e as drogas longe daquilo que aparentemente mais amava.

Além de um enredo que nos prende do início ao fim, o filme também se destaca pela excelente qualidade da produção. Daniel Rezende é ousado na direção, usa filtros que deixam as cenas externas iguais aos anos 80. Fotografia, trilha sonora, figurino, cenários, tudo muito bem ambientado, sem defeitos aparentes. E com um roteiro bem dinâmico somos envolvidos por um palhaço que nunca tratou a criança como idiota, em uma atuação excepcional de Vladimir Brichta.

Bingo – O rei das manhãs retrata bem a loucura e o politicamente incorreto dos anos 80, é uma comédia dramática nostálgica, divertida, com uma ótima produção que vale a pena ser conferida.

Trailer (para maiores de 18 anos)

FICHA TÉCNICA
Título: Bingo – O Rei das Manhãs
Direção: Daniel Rezende
Data de Lançamento no Brasil: 24 de agosto de 2017
Michele Lima
Na Nossa Estante

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