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Contos de Terror – Tomo I [Resenha Literária]

Quem me conhece sabe que não sou fã de terror, sou medrosa e isso me atrapalha bastante, mas em 2017 eu resolvi sair da zona de conforto e ler coisas diferentes, por isso fiquei mega animada em ler Contos de terror. O Tomo I apresenta dois contos de Rudyard Kipling, um de Ambrose Bierce, Nathaniel Hawthorne e HP. Lovecraft! Cada conto é instigante a sua maneira e mais do que o enredo em si os elementos que compõe cada história foi o que mais me fascinou.
A coletânea, como diz Maria Aparecida de Oliveira na introdução, não são de contos aleatórios de cada autor. Na verdade, o gótico e sobrenatural unem todos como um fio condutor, dando coerência ao conjunto da obra.
O primeiro conto, a Marca da Besta, é de Rudyard Kipling e mexe com o sobrenatural de forma bem real. Narrado em primeira pessoa, acompanhamos a história de três homens, sendo um deles, Fleete, que por ignorância a cultura do país em que está, no caso a Índia, marca a estátua de um deus com cigarro e é amaldiçoado por isso. O proverbio que inicia o conto já nos mostra bem a reflexão que a história nos propõe: “Seus deuses ou meus deuses: você sabe, ou sei eu, quais são mais fortes? ”. Seria Fleete a representação de uma cultura tentando se impor a outra? E quem é a besta, Fleete ou o sobrenatural que o ataca?

Em A morte de Halpin Frayser, de Ambrose Bierce, temos duas narrativas intercaladas em que uma ajuda na resolução do mistério da outra. Ao longo da história o autor vai nos dando pistas para resolver o grande mistério. Temos uma ambientação sombria, numa floresta quase onírica e um protagonista que se depara com a morte da mãe, aliás, a relação dos dois é o mais intrigante na história, como se estivesse quase no limite entre o amor fraterno e um incesto.
O terceiro conto, Ethan Brand, Capítulo de um romance abortivo, tem uma história mais filosófica e talvez a mais complexa de todas. Ethan se assemelha a Fausto e seu pacto com o demônio, já que procura o Pecado Imperdoável. Não sabemos que pecado é este, mas sabemos que Ethan parece ter o coração petrificado. A narrativa de Nathaniel Hawthorne é de certo modo circular, em que o fim se parece com o começo.

A cor do espaço distante, de H.P. Lovecraft, é meu preferido de todos. A história parece ter mais elementos de ficção científica do que terror, ou melhor, uma excelente mistura dos dois. Quando um meteoro cai na fazenda de Nahum, sua família inteira começa a agir de maneira estranha. A água que eles consumem o transformam aos poucos e como se atendendo a um chamado, os filhos se jogam no poço, a mulher enlouquece e no fim das contas o próprio Nahum também. Apesar de ser em primeira pessoa, o narrador sabe da história por meio de um vizinho, que presenciou parte dos fatos. Um dos pontos mais interessantes é que o narrador diz que a linguagem humana não é capaz de compreender o estranhamento que tomou conta da região. O que me faz lembrar que a linguagem tal qual conhecemos hoje é limitada e incapaz de nos ajudar a compreender muitas coisas que existem no universo, assim como os fatos que acontecem na fazenda de Nahum.
O último conto, O riquixá fantasma, é um história de assombração. Numa linguagem simples, fácil e dinâmica, Rudyard Kipling vai nos contando como uma mulher apaixonada pode torturar seu amado mesmo depois da morte. O conto é narrado pelo próprio atormentado, Pansay, que depois de um tempo se cansa da Sr. Wessington, mas ela nunca dele. A história fica no limiar entre a realidade e as alucinações do protagonista. Será mesmo que Pansy é atormentando pela ex-amante ou será que a culpa por abandoná-la e desprezá-la que o consome?

Enfim, é importante ressaltar que os contos de modo geral apresentam os elementos góticos como a linha tênue entre o real e o sobrenatural, razão e loucura, o bárbaro e o civil e a pitada de realismo fantástico. Pitada essa que faz com o leitor compre cada conto e ache bastante verissímil todos os acontecimentos, ainda que fora da linha narrativa pareça tudo bem irreal.
Quem gosta de histórias sobrenaturais, inclusive com ficção científica, vai apreciar a coletânea. E quem não costuma ler nada do gênero, mas quer se aventurar fica minha recomendação, já que a única coisa que realmente me assustou foi o fato de ainda não ter lido nada sobre nenhum desses autores antes desses contos!
FICHA TÉCNICA
Título: Contos de Terror – Tomo I
Autor: Rudyard Kipling, Ambrose Bierce, H. P. Lovecraft, Nathaniel Hawthorne
Onde Comprar: Amazon


Michele Lima

Na Nossa Estante

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