O Morro dos Ventos Uivantes [Crítica]

 O Morro dos Ventos Uivantes

O romance escrito por Emily Brontë em 1847 já recebeu nove adaptações cinematográficas oficialmente reconhecidas entre 1920 e 2011, sem contar releituras livres, versões televisivas ou obras inspiradas. Em 2026, a Warner Bros. Pictures decidiu lançar mais uma variação para contar a história desse clássico, agora sob uma perspectiva distinta da obra original, reunindo Margot Robbie, Jacob Elordi e a direção de Emerald Fennell.

A produção se passa na Inglaterra do século XIX e acompanha Catherine Earnshaw (Robbie), uma jovem que vive ao lado de seu pai (Martin Clunes), homem de boa condição financeira, e de sua amiga e conselheira Nelly Dean (Hong Chau), empregada da casa. O ambiente é marcado por uma estética sombria, de forte inspiração gótica, que conduz o espectador às angústias e tensões daquele espaço.

Em determinado momento, um garoto pobre, sujo, órfão e desamparado é visto por Cathy vagando sozinho sob uma intensa chuva. Sensibilizada, a jovem o leva para casa em busca de abrigo, dando-lhe o nome de Heathcliff, enquanto seu pai decide “adotá-lo”. Contudo, nem tudo são flores: o menino também passa a servir à família por ordem do Sr. Earnshaw, sofrendo maus-tratos diante das garotas. Ainda assim, a conexão entre Cathy e Heathcliff (Jacob Elordi) se estabelece de maneira singular desde a infância.

Com o amadurecimento dos personagens e o despertar de sentimentos até então latentes, surge o novo olhar dessa proposta interpretativa autoral e estilísticamente distinta. O longa não se limita a retratar um romance, mas constrói ao redor da trama um conjunto de elementos visuais e sonoros que evocam, de forma explícita, a sexualidade.

Com o passar do tempo, Cathy passa a se sentir sem perspectivas naquele ambiente inóspito e decide buscar uma nova jornada. É nesse percurso que conhece a rica família Linton, em um espaço onde as cores são mais saturadas e harmônicas. Logo, ela se casa com Edgar Linton, que vive ao lado da irmã Isabella, e não retorna à sua cidade natal, mantendo contato apenas por meio de cartas enviadas ao pai.

Entretanto, a protagonista é consumida por um sentimento angustiante, pois continua apaixonada por Heathcliff. Ao visitá-lo, durante uma conversa com Nelly, acaba confessando que seria impossível ficarem juntos devido à diferença de classe social. Heathcliff escuta a conversa e abandona a cidade, sem permanecer para ouvir que, apesar de tudo, ela ainda o amava. Nelly, por sua vez, omite o fato de ter percebido que ele escutava tudo.

É nesse ponto que surge uma das principais polêmicas em comparação à obra original e às diversas adaptações anteriores. Se antes Heathcliff era marcado por um contexto racial que justificava sua impossibilidade de ficar com Catherine, aqui essa questão é abordada de forma diferente, o que gerou forte rejeição de parte do público, especialmente pelo personagem ser interpretado por um ator branco e amplamente sexualizado.

 O Morro dos Ventos Uivantes
A narrativa, então, passa a retratar uma espécie de luto interno vivido pela protagonista em meio à sua vida confortável ao lado de Edgar. Tudo se transforma com o retorno de Heathcliff, agora completamente diferente e rico. Nesse momento, a direção intensifica sua linguagem narrativa, apostando em uma abordagem mais visceral. Os encontros secretos entre os dois ganham espaço, enquanto a exploração visual de cunho “soft porn” se faz constante, enfatizando o desejo sexual selvagem que os une e os conduz a uma obsessão quase maldita, que parece persegui-los até o fim de suas vidas.

As atuações de Margot Robbie e Jacob Elordi são o grande destaque do filme, entregando uma intensidade capaz de tirar o fôlego. Esse desempenho sustenta uma história movida por vingança, traição e erotismo. Ainda assim, em diversos momentos, os recursos sexualizados soam forçados, gerando risos involuntários em vez de fortalecerem a cosmologia da obra um dos principais defeitos de um filme que já parte de uma proposta ousada ao se comparar com o material original.

Apesar disso, a direção de Emerald Fennell se mostra segura na condução desses elementos, especialmente na construção dos ambientes e na representação dos estados emocionais dos personagens, aliada a uma trilha sonora que dialoga bem com a narrativa. No entanto, para os leitores mais apegados ao livro, dificilmente as escolhas dessa adaptação serão bem recebidas. Ainda assim, trata-se de um filme competente, mesmo trilhando caminhos já conhecidos.

FICHA TÉCNICA

Título: O Morro dos Ventos Uivantes
Título Original: Wuthering Heights
Direção: Emerald Fennell
Data de lançamento: 12 de fevereiro de 2026

Lucas Venancio

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