Após anos em busca de um tom realista para seus filmes, a DC Comics vai na contramão e entrega sua produção mais fiel à essência dos quadrinhos desde Superman (1978). Em vez de apostar na liberdade criativa de seus diretores, o estúdio opta por pavimentar um universo alinhado com os pilares que sustentaram mais de 85 anos de histórias do primeiro super-herói.
Isso não é exatamente uma novidade: as inúmeras tentativas de reaproveitar o universo iniciado em Homem de Aço (2013), após a saída do diretor Zack Snyder, também buscaram uma estética mais colorida e cartunesca, mas com roteiros que beiravam o ridículo, em histórias profundamente esquecíveis. Já em Superman (2025), a DC dá início a um novo universo cinematográfico, mostrando que, às vezes, fazer o simples bem feito é a decisão mais sensata.
Contudo, esta não é uma história de origem. O filme parte da premissa de que todos já conhecemos o protagonista, retratado em inúmeras adaptações para o cinema, TV e streaming, e oferece apenas um breve texto introdutório antes de nos lançar diretamente na ação eletrizante da primeira luta que Superman perde em seus três anos de carreira como super-herói. Não demora muito para que David Corenswet convença como um excelente Superman.
Longe da imagem estoica e repleta de referências messiânicas da versão anterior, este Super-Homem é muito mais humano, resgatando a versão clássica em que ele se preocupa – acima de tudo – com toda forma de vida, mais do que com a própria batalha. Desde sua primeira aparição, transmite um tom espirituoso, levemente ingênuo e profundamente humanitário – traços de personalidade que são aprofundados na cena de discussão entre Clark e Lois Lane (Rachel Brosnahan), já presente no trailer, em um dos poucos momentos em que o ritmo da narrativa desacelera.
Sobre o casal, vale destacar: esse é o coração da história. A química entre os dois esbanja naturalidade, tensa no início, mas se revelando essencial para o desenrolar da trama. Lois é tão fundamental quanto Clark, embora vejamos pouco de seu alter ego jornalista. Enquanto isso, Lois lidera a subtrama do Planeta Diário, que traz de volta os icônicos jornalistas dos quadrinhos: Perry White (Wendell Pierce), a ‘insuportável’ Cat Grant (Mikaela Hoover) e Jimmy Olsen (Skyler Gisondo) – um personagem frequentemente injustiçado no cinema, mas que finalmente recebe uma versão digna, cheia de personalidade, energia e coragem.
E o Lex Luthor? O que dizer do arqui-inimigo de Superman? Após uma longa jornada por versões que vão do galhofa (Gene Hackman), ao anti-herói complexo (Michael Rosenbaum), ao vilão pouco convincente (Kevin Spacey) e à caricatura desfigurada (Jesse Eisenberg), Nicholas Hoult entrega o verdadeiro Lex Luthor. Fiel aos quadrinhos e lembrando as animações de Bruce Timm, seu Luthor é cruel, vil, mesquinho.
Nada de distúrbios mentais ou dualidades emocionais: este Luthor é plenamente consciente de seus atos. Um gênio manipulador, sempre dois passos à frente dos protagonistas. Suas motivações vêm do medo e da aversão ao Superman – ele teme o que o herói pode fazer, justamente porque é tão humano quanto ele, conhecendo as falhas e fragilidades da humanidade. Como confiar em alguém com o poder de destruir a Terra em minutos, sem que haja quase nada capaz de detê-lo?
Outra camada da interpretação desse Luthor está na xenofobia, o preconceito contra imigrantes. No filme, o vilão ressalta em diversas ocasiões, com certo desprezo, que Superman é um alienígena, e não um humano, sugerindo que não deveria ser julgado pelos mesmos padrões da justiça norte-americana. Essa discussão foi endossada até mesmo pelo diretor James Gunn, que afirmou ao jornal britânico The Times: “Superman é a história da América. Um imigrante que veio de outro lugar e se instalou no país. Mas, para mim, é principalmente uma história sobre como perdemos noções básicas da gentileza humana”.
Além disso, o longa aborda o conflito entre duas nações fictícias: a invasão de Jarhanpur, arquitetada pela Boravia. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência – Jarhanpur é visivelmente mais militarizada. Contudo, talvez uma das derrapadas do filme esteja na falta de aprofundamento das motivações de seu líder político. O conflito funciona mais como pano de fundo para questionar as ações de Superman, que impede a invasão de forma moralmente duvidosa.
Quanto ao Lanterna Verde (Nathan Fillion), à Mulher-Gavião (Isabela Merced) e ao Senhor Incrível (Edi Gathegi), o trio que forma a chamada ‘Gangue da Justiça’ brilha em tela. Apesar das poucas aparições, deixam um gosto de ‘quero mais’. Krypto, o ‘supercão’, é outro ponto alto do filme, que além da fofura, tem um papel fundamental na ação do filme. No núcleo familiar, os pais humanos de Clark – Martha (Neva Howell) e Jonathan Kent (Pruitt Taylor Vince) – têm pouquíssimo tempo de tela, mas uma cena próxima ao final traz consigo uma forte carga emocional.
Nos aspectos técnicos, o CGI raramente incomoda. O super close no rosto de David Corenswet durante as cenas de voo causa certa estranheza, especialmente no início, mas se torna menos recorrente com o tempo. Já a trilha sonora peca por não apresentar uma identidade própria. Além da versão 2.0 do tema clássico de John Williams, a música poderia ter sido mais bem explorada. No máximo, Lex Luthor ganha seu próprio tema, mas este soa genérico e pouco memorável.
Em suma, Superman (2025) é honesto no que se propõe: entrega um filme fiel às HQs. A maior qualidade do personagem, presente ao longo de seus mais de 85 anos de histórias, é sua humanidade. Afinal, mesmo sendo um alienígena, foi criado na pacata Smallville, no Kansas, por pais humanos que lhe ensinaram seus valores. Temos de volta a aura de esperança e a mensagem de que toda pessoa é importante e admirável, seja ela quem for. E, em tempos sombrios como os que vivemos, talvez não haja mensagem mais necessária do que essa.
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Fiquei com vontade de assistir. Mais uma versão de filme do super herói com uma nova ótica.
Boa semana!
O JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!
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Até mais, Emerson Garcia