O mal nosso de cada dia [Resenha Literária]

Se alguém me pedir pra resumir O Mal nosso de cada dia eu diria: indigesto! Não só na descrição de algumas cenas, mas também em relação aos personagens, quase ninguém se salva nessa história e é tanta coisa ruim ao mesmo tempo, que foi preciso parar para dar uma respirada em vários momentos. Definitivamente foi um livro que me tirou da zona de conforto e a experiência foi como pular do alto de um penhasco e no final cair num rio gelado em pleno verão. O começo é ruim, mas depois que você se acostuma sente orgulho por ter conseguido encarar o desafio. 

Em mal nosso de cada dia vamos conhecer alguns personagens de uma cidade esquecida no interior de Ohio. A história começa com Willard Russell, um homem que voltou diferente da guerra e que ao ver a esposa à beira da morte começa a matar animais em oferenda para que Deus a salve. Russell é fervoroso em suas preces e obriga seu filho Arvin a participar de tudo com ele. Arvin é uma criança negligenciada e ao crescer vai se tornando uma pessoa fria. Em outro núcleo temos Theodore e Roy, uma dupla que usa a palavra de Deus para enganar os outros. Theodore tem deficiência física e é um homem sem escrúpulos, é a mente cruel da dupla, enquanto Roy parecia acreditar verdadeiramente que era um homem de Deus, mas de modo muito distorcido. E ainda temos o casal assassino Carl e Sandy. São eles que nos proporcionam as cenas mais nojentas, o autor não mede palavras para descrever toda a sujeira de Carl, sua tara em matar e por fim o xerife corrupto, Bodecker, irmão da Sandy.
O começo da leitura é difícil porque parece enrolada, mas em pouco tempo Donald Pollock consegue desenrolar a narrativa e ela fica fácil, fluída e indigesta. Interessante notar que nem todos os crimes são descritos com riqueza de detalhes, o autor faz uso das alusões em vários momentos, mas não poupa em cenas de banheiro, em descrição de fedor, em sujeiras, em um estilo bem naturalista. E mesmo sem descrever alguns dos crimes, Pollock consegue nos chocar com a perversidade da humanidade, é o horror no seu estado mais puro.
Toda vez que pegava pra ler O mal nosso de cada dia eu me preparava para me deparar com o pior, eu temia por cada inocente que entrava no caminho de Carl e Sandy, de Theodoro e Roy e torci para que Arvin conseguisse ter uma vida normal, apesar de tudo, mas era inevitável a sensação de desesperança que Pollock constrói muito bem.
Os capítulos não são longos e pode parecer que os personagens são aleatórios (e ainda acho que Roy que Theodoro ficaram avulsos), mas Pollock consegue conectar as histórias em uma narrativa violenta, tensa e densa, em que se escancara sem piedade o pior lado do ser humano. Claramente o autor descreve cenas e situações para apenas chocar e talvez tenha pesado a mão em alguns momentos, mas tudo foi bastante realista.
O mal nosso de cada dia é desesperador, um relato visceral e honesto sobre o pior do lado humano, é um leitura que nos causa horror, temor, pavor e ainda assim você quer ler até o final, torcendo para que os personagens encontrem o castigo devido.
Vale lembrar que o filme ganhou uma adaptação original Netflix, com direção do brasileiro Antonio Campos (Afterschool e The Sinner), produção do ator Jake Gyllenhaal e o elenco com Sebastian Stan (Capitão América), Tom Holland (Homem-Aranha), Robert Pattinson (O Farol), Bill Skarsgard (It: A Coisa), Mia Wasikowska (Alice no País das Maravilhas) e Eliza Scanlen (Objetos Cortantes). Para ler nossa crítica CLIQUE AQUI.
FICHA TÉCNICA
Título: O mal nosso de cada dia
Autor: Donald Pollock
Onde Comprar: Amazon

 

Michele Lima
Na Nossa Estante

View Comments

  • Oi, Mi
    Com certeza esse livro não é para mim. Eu gostei até de ler aqueles livros da Darkeside sobre serial killers, mas são coisas bem por cima, não temos uma história sendo contada, então se eu fosse ler, com certeza abandonaria no comecinho. Meu estômago para essas histórias nem existe HAHAHAHA Meus parabéns pela coragem Mi.
    Beijo
    http://www.capitulotreze.com.br/?m=1

  • A conexão entre os personagens foi uma das coisas que mais me agradou, assim como as críticas ao fanatismo religioso. É realmente um relato visceral e eu não imaginava curtir tanto a leitura, mas acabei lendo e querendo saber do final. Eu achei o plot previsível mas não me decepcionei.

    Abraço

    Imersão Literária

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