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Pops: A vida de Louis Armstrong [Resenha Literária]

Em algum momento da minha infância, o rádio tocou What a wonderful world, de Louis Armstrong, e meu pai me disse que meu avô adorava aquela música. Como meu avô paterno faleceu antes mesmo de meu pai pensar em casar, essa música, de alguma forma, permaneceu sempre como uma espécie de lembrança dele. Exatamente por essa razão, não pude resistir quando encontrei Pops: A vida de Louis Armstrong, escrita por Terry Teachout, em um balaio da Feira do Livro de Caxias do Sul de 2015. Afora a música citada, não conhecia mais nada de Armstrong, então talvez por isso não tenha colocado a biografia no topo da minha lista de leitura. 2018 chegou, me levou às terras paulistas [o que foi razão de encontro de parte dos colunistas da Estante] e, quando olhei para minha estante, Louis pareceu o companheiro de viagem perfeito – e realmente foi.
Armstrong faleceu em 1971 aos 70 anos (mas achando que tinha 71, tudo bem, o enganaram desde a infância quanto à sua data de nascimento), mas Pops só foi lançada em 2009. Isso pode parecer muito tempo e nos faz pensar que, durante esse período, muito já havia sido escrito e dificilmente o trabalho de Teachout seja significativo. A verdade, porém, é que, no fim de sua carreira, Armstrong recebeu muitas críticas, soando ultrapassado para muitos, além de, claro, ter sido eternamente criticado por sua alegria no palco, parecendo uma espécie de ‘fantoche dos brancos’. Então, logo depois de sua morte, apesar dos comentários sobre a importância de sua carreira, poucos se aventuraram a pesquisar e analisar sua obra. Em 1994, o surgimento da Queens College’s Louis Armstrong Archive assumiu o papel de maior conservador público da memória de um músico de jazz, afinal lá estão gravações em estúdio, fotografias, partituras, além das dezenas de cadernos de anotações e documentos pessoais do músico – e, claro, cinco trompetes.
Ou seja, Teachout teve acesso a muito mais material do que biógrafos anteriores do músico, inclusive às fitas em que Armstrong gravava encontros com amigos e suas memórias, tornando Pops uma obra completa, já que traz citações da mídia, depoimentos de músicos que conviveram com ele e, claro, palavras do próprio músico (tiradas das anotações e das gravações). Não é à toa que cerca de 100 páginas no final do livro são dedicadas às referências, citadas por capítulos e com alguns comentários extras. Além de tudo, o biógrafo nos traz uma lista de 30 gravações essenciais do músico, a qual eu fiz a gentileza (para mim e para vocês) de transformar em playlist no YouTube. (Não há de quê!) Em resumo, para quem (como eu) não sabe nada sobre Louis Armstrong, o trabalho de Terry Teachout é uma aula – e não apenas sobre o músico em si ou sobre a história da música, mas também por nos trazer em detalhes a vida em um país segregado, onde um músico negro tocava em hotéis em que não poderia se hospedar e era proibido de usar o banheiro de alguns lugares (para não dizer que não era atendido em outros tantos). Não à toa a alegria com que Armstrong tocava no palco e com a qual regia sua vida foi criticada por outros tantos artistas negros, mas ele tinha sua maneira de lutar contra isso:
“Anos atrás, eu estava tocando em uma cidadezinha de Lubbock, Texas, quando esse gato [termo usado por Louis, equivalente a ‘cara’] branco me agarra no final do show – ele está cheio de uísque e problemas. Ele bate no meu peito e diz: ‘Eu não gosto de pretos!’. Esses dois gatos que estavam comigo queriam usar a faca de cortar carne do Dia de Ação de Graças nesse cara. Mas eu disse: ‘Não, deixem o homem falar. Por que você não gosta de nós, Pops [termo usado por Louis para se dirigir às pessoas, algo tão típico dele que se tornou título da biografia de Teachout]?’ . E você acredita que o gato não conseguiu explicar? Então, ele se desculpa – chorando e se afastando… E adivinhe só: aquele fella [companheiro] e toda a sua família acabaram se tornando meus amigos! Sempre que eu ia a Lubbock, Texas, por muitos e muitos anos, eles recebiam e tratavam o velho Satchmo [apelido de Louis] como um rei.”
(p. 391-2)
Também vale lembrar que Armstrong tocou em bandas mistas por boa parte de sua vida, o que era proibido em alguns lugares dos Estados Unidos, impedindo assim a apresentação do ‘melhor trompetista do mundo’ (título que recebeu ainda jovem): “Essas pessoas que criam essas restrições […] não sabem nada sobre música, não é nenhum crime gatos de qualquer cor se reunirem para tocar.” (p.27). Outro marco foi a entrevista na qual chamou o presidente Einsenhower de ‘duas caras’ e ‘covarde’ por não decretar o fim da segregação racial nas escolas públicas do país. De sua forma, Satchmo provou que, com um sorriso no rosto e dedicação ao que se faz, também é possível lutar contra o preconceito. Como bem escreveu Teachout, “Confrontado pelas terríveis realidades do lugar e da época em que nasceu, ele não se afligiu, mas retribuiu ódio com amor e procurou a salvação no trabalho” (p.392).
Acho que provei que você conhece Armstrong ao colocar o vídeo de What a wonderful world no começo desse post (não resisti), música que é tocada até hoje nas rádios e usada como trilha de propagandas (assim como a versão dos Ramones). Mas como quero te convencer também a buscar, conhecer e ouvir mais Satchmo, encerro com a canção que, na década de 60, quando muitos já o consideravam ultrapassado, levou Louis ao topo das paradas, desbancando até mesmo os Beatles:
________________
Pops: A vida de Louis Armstrong

Autor: Terry Teachout
Título original: Pops – a life of Louis Armstrong
Tradução: Andrea Gottlieb de Castro
Editora: Larousse do Brasil
Ano: 2010
Páginas: 511

Ana Seerig

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