Tô Ryca [Resenha do Filme]

A primeira coisa que se pensa ao ler o enredo de Tô Ryca é que mais uma vez vamos ver um filme falando de alguém pobre que ficou rico e principalmente no cinema nacional isso não é novidade. Em tempos de crise, o desejo de ficar rico até fica mais forte. No entanto, apesar de uma história já batida, Tô Ryca nos ganha com piadas bem inteligentes, com um ótimo sarcasmo sobre pobreza que fica difícil não ter uma identificação com os personagens. 

Selminha (Samantha Schmütz) é uma mulher solteira, pobre, cansada de pegar dois ônibus lotados todo dia pra trabalhar e ter que aguentar o chefe folgado. A personagem é o estereótipo da pessoa trabalhadora, cansada de ser explorada, mas o melhor da sua vida é sua amizade com Luane (Katiuscia Canoro), uma moça mais conformada que está passando por problemas com o namorado. Tudo muda quando Selminha descobre um tio que está morrendo e vai deixar com ela uma enorme herança, mas para ter acesso ao dinheiro ela precisa passar por um grande desafio: gastar 30 milhões em um mês! É claro que todos nós achamos que isso é fácil, mas é preciso cumprir algumas regras: não pode contar a ninguém, não pode adquirir nenhum bem e apenas uma pequena parcela do dinheiro pode ser gasta com doações e jogos de azar. Ou seja, Selminha precisa mesmo torrar toda a grana e a princípio ela faz isso muito bem: festas, bebidas, comidas, roupas, salão de beleza, esportes radicais, enfim, tudo que é possível. Porém, quando Luane se cansa da vida de riqueza sem o namorado, Selminha fica bastante perdida. Sem a amiga nada faz muito sentido.

Durante toda a trama vemos Selminha realizando seus sonhos enquanto Luane só quer seu grande amor, sendo a personificação daquela máxima que diz que dinheiro não é tudo, dinheiro não compra felicidade e toda aquela hipocrisia criada pela sociedade só pra gente se conformar em ser pobre. Entendo que Luane queira o namorado, que sinta falta dele, mas se ele estivesse com ela o tempo todo, ela não iria reclamar do dinheiro, por isso, não me convence.

No entanto, as duas personagens possuem uma amizade forte, muito bem construída e que segura boa parte da trama, bem como situações engraçadíssimas em que a atriz Samantha Schmütz consegue mostrar a todos seus brilhantismos como comediante. Selminha e Luane são exemplos de que ainda bem que é mais fácil tirar alguém da comunidade, do que a comunidade da pessoa. Não importa o quanto você ganhe, aceitar suas raízes é o que vai te deixar mais feliz. Só vamos combinar que com dinheiro é infinitamente melhor, porque de fato ser rico com os amigos na periferia é muito melhor do que ser rico sozinho num palácio.

E como se não bastasse toda a dicotomia rico vs pobre, o filme ainda trabalha com assuntos políticos, já que Marcelo Adnet é um político de extrema direita chamado Falacio Fausto, nome bem sugestivo. Falacio é a caricatura do Bolsonaro e temos aqui uma crítica explicita aos políticos ditos conservadores. E vale destacar a cena do debate político com o tema C*, que foi a melhor cena do filme, com certeza.

Tô Ryca não foge de velhas lições de moral, mas o final não mostra hipocrisia por parte de Selminha, o que me agradou bastante. Quem já assistiu Minha Mãe é uma Peça e Vai que cola vai conseguir perceber claramente o humor cheio de sarcasmo do roteirista Fil Braz, que particularmente me agrada bastante, apesar de ser uma produção bem simples.

Trailer:

FICHA TÉCNICA
Título: Tô Ryca
Diretor Pedro Antonio
Ano 2016



*Conferimos o filme na Cabine de Imprensa.

Michele Lima

Na Nossa Estante

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