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As Invasões Bárbaras [Resenha do Filme]

Título Original: Les Invasions Barbares
Diretor: Denys Arcand
Ano: 2003
País: Canadá

As invasões bárbaras é a continuação do filme A queda do império americano. Ele reúne anos depois os historiadores da Universidade de Montreal por conta de Rémy, agora divorciado e com uma doença terminal.
É interessante observar que o filme também remete ao filme anterior de Denys Arcand, “Jesus de Montreal” (1989). Quem assistiu “A queda do império americano” e “Jesus de Montreal”, tem a impressão de estar acompanhando a trajetória de pessoas que nasceram, transitaram e viveram por Montreal. A luz dessas personagens o diretor monstra que mesmo em um país tal como o Canadá, não pertencente ao “terceiro mundo”, está tomado de problemas sociais, entre os realçados pelo diretor estão: (1) hospitais públicos com péssimas condições, a tal ponto que não há local para os pacientes ficarem; (2) abandono dos pacientes internados por parte dos familiares; (3) segurança pública ineficiente, corrupta e desmoralizada (um bom exemplo é a série de roubos que ocorrem no hospital e a policia simplesmente não faz nada e ao que parece é conivente e beneficiária do esquema de roubo implementado pelo sindicato de funcionários do hospital) e (4) sindicatos corrompidos.

Em outras palavras, nos é apresentado um cenário de completo caos e instabilidade, onde quem detém recursos (leia-se dinheiro) são capazes de conseguir meios para obter melhor condição de vida, caso contrário estará à mercê a escassez de serviços básicos. Ao longo da narrativa, que gira em torno da tentativa do filho de Rémy em tornar os últimos dias do pai mais agradáveis, somos conduzidos a uma profunda reflexão do que é a vida (ou uma busca por uma filosofia de vida), o legado ou memória que podemos deixar a nossos descendentes e mesmo tensões familiares que giram em torno de desavenças entre pais e filhos.
Destes elementos talvez o mais caro ou mais bem trabalhado é a memória. Arcand a todo o momento não demonstra que somos invadidos quando menos esperamos por fatos ou situações que podem alterar a trajetória de nossas vidas de forma radical, isso talvez fique mais evidente no diálogo entre Rémy e Nathalie, filha de Diane:

R: Não há como sabermos o futuro, não somos capazes nem de entender o passado.
N: Talvez o que ocorre é que você já está morto, pois o que te atormenta é o passado que o deixou, que já não existe.



A fala de ambos trás em si reflexões existencialistas profundas, frutos de uma sociedade cada vez mais globalizada que força a uma produção em série, não havendo espaço a genialidade (Rémy questiona o tempo todo não ter escrito nada de bom) nem espaço para a sociabilidade e o coletivo (há tanto uma esvaziamento do “eu” quanto do “nós”).
Esse é mais um filme merecedor de ser visto, guardado e (re)pensado. Sem dúvida alguma Denys Arcand é um desses grandes diretores, ele produz filmes magistrais, sabendo como ninguém chamar atenção para os problemas diários vivenciados em qualquer cidade desse mundo cada vez mais global.
Até a próxima!
Juliana Cavalcanti

Nota:

Na Nossa Estante

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